Hypochondriac lifestyle – O conto

Ninguém escolhe ser branco, negro, alto, baixo, cabeludo, careca, muito menos hipocondríaco. Ser hipondríaco dá trabalho. Não é para qualquer um. Praticamente um estilo de vida. E foi assim com o pequeno João.

Desde os oito anos quando aprendera o que era convênio médico já marcava suas consultas sozinho! E sozinho mesmo ia ao encontro dos doutores, sem o conhecimento de seus pais. A vítima médica preferida das visitas do menino era a sua pediatra, doutora Aparecida. Beirando seus 40 anos, cabelo preto um pouco abaixo do pescoço, por volta de 1m60 de altura, era ela quem recebia o tagarela e curioso João.

Um nariz entupido, um ralado no joelho, qualquer coisa era motivo para que o garoto tivesse a plena convicção de que a morte se aproximara e rumar convicto para o consultório da Dra Aparecida, única capaz de salvá-lo da cova.
Até que um belo dia, um desses dias calmos cuja sensação iminente é de que algo está para acontecer, João sente uma pontada no peito. Decidiu ignorar, já entendo sua condição paranóica hipcondríaca, mas de nada adiantou. A pontada voltou, desta vez acompanhada por mil outras cada vez mais fortes. Não restavam dúvidas a hora tinha chegado.

Atríbuia aquele começo de enfarte ao seu estilo de vida boêmio. No auge dos dez anos adorava um pão com maionese e uma copo de leite bem açucarado com chocolate em pó. Só podia ser isto! Mas não podia aceitar resignado seu fim sem antes consultar ela, que tantas vezes o havia salvado, ela cujo nome era tão associado a milagres, a salvadora Dra Aparecida.

- Dra
- Que foi dessa vez, muleque?
- Eu tô sentindo uma pontadas aqui, no peito sabe? Vou morrer! (disse com a voz embargada)
- Deita aí.

Ali deitado, esperando pacientemente seu triste fim, a médica colocou a mão espalmada sobre sua barriga. Com dois dedos bateu sobre a outra mão várias vezes. O que se ouviu foi um barulho oco. Era isso, a doença – seja lá qual fosse ela- já havia se espalhado! Foi então que, com um movimento brusco e sorrateiro, Dra Aparecida com uma mão em cima da outra, de modo a lembrar o formato de uma lança, apertou a barriga do pobre menino o máximo que pode. No mesmo momento se ouviu um sonoro e não menos fedido peido (não vamos usar eufemismos) vindo das entranhas de João. Os movimentos de Dra Aparecida seguiram, desta vez lembrando o Jack Stripador diante de uma vítima, e os peidos mais ainda. Era peido pra tudo quanto é lado. Altos, baixos, fedidos, inodoros. Um festival gástrico.

Imediatamente a dor no peito se foi. Foi-se também a dignidade, a honra e a credibilidade do pobre menino. Menino este que depois da sessão olhou para a médica que sorria vingativa para ele e tentando encontrar alguma voz, disse com um risinho tímido:

- Olha! Eram gases! Que coisa, né?

Saiu com a sensação de que era hora de trocar de pediatra. A Dra Aparecida era milagrosa, mas tinha um problema, sabia demais!

 

O melhor presente

Hoje é o meu aniversário!
Divido com vocês uma crônica que mamãe fez pra mim.
O meu melhor presente, sem dúvidas.

PARA FICAR NA HISTÓRIA

 

Eu sabia que 1989 seria um ano inesquecível. Esperei por ele com ansiedade. Após os  anos de ditadura, a frustração com a campanha das “Diretas Já” em 1985, votaria pela primeira vez para presidente do meu país. Havia no ar um clima de esperança, de patriotismo, e liberdade. Entre as aulas que ministrava e os cuidados que meus três filhos exigiam, lia tudo que me vinha às mãos, prestava atenção nos noticiários, assistia as entrevistas no Jô Soares e na Marília Gabriela e sentia o coração arder de entusiasmo. Tudo mudaria para melhor. As reformas necessárias seriam feitas. Haveria justiça social e distribuição de renda. O país voltaria a crescer. A economia se estabilizaria,  acabando de vez com a maldita inflação de  50% ao mês que me  deixava cada dia  mais pobre, não obstante meu tão minguado salário. Deus, como eu era ingênua!

 

 No primeiro turno votei no Brizola, apaixonada pelo seu discurso nacionalista. No segundo, no Lula, não porque acreditasse nele, mas porque tinha medo do Collor, com aquele ar raivoso, ensandecido. Mesmo assim, gostei de ver aquele jovem (ainda que  raivoso e ensandecido) ao lado da sua linda e loura esposa acenando para a multidão. Hummm, será?  Deus como eu era ingênua!

 

Mais surpresas me esperavam em 1989. Quando vi as imagens da queda do Muro de Berlim em 09 de novembro tive a nítida certeza de que a História estava sendo escrita sob meus olhos. Eu que no mesmo ano, em junho, chorei pelo massacre da  Praça da Paz Celestial em Pequim, pasma com aquela imagem do estudante chinês desafiando os tanques de guerra do  Governo Comunista.

 

Minha história pessoal também ganhou um capítulo novo em 1989. Em abril, mesmo usando anticoncepcional, descobri que estava grávida, de dois meses. Em novembro nasceria meu quarto filho. Confesso, fiquei em choque. Como dar conta de “mais um”? Primeiro passo, contar a novidade para a família. Foi mais ou menos assim: “Então, que maravilha,  nossa família vai aumentar! Vamos ganhar um bebezinho, mamãe está grávida”!  André  (03 anos): silêncio. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas sabia que algo mudaria seu reinado de caçula. Isso não parecia muito bom. Israel (10 anos): que bom!  Oba! Alexandre (14 anos): Meu Deus do Céu, mais uma criança nessa casa, quem vai agüentar! Abílio o pai  (32 anos): fodeu! (desculpe o palavrão).  

 

Meus alunos faziam a festa e nunca antes, na história deste país, uma barriga foi tão acariciada, apalpada, acarinhada como a minha. E assim cresceu a mais não poder. Para desespero geral de todos,   decidi não saber o sexo antes da hora. Capaz que eu dividiria isso com alguém! A primeira a saber seria eu e ponto final.

 

E assim, entre uma aula e outra, os cuidados com a casa e a filharada, os debates com os candidatos na televisão, a esperança de um país melhor, com um presidente eleito democraticamente, de preferência o Brizola (Deus como eu era ingênua!) fui vivendo minha gestação. Passados o susto e a surpresa, estava feliz da vida, empolgada, vivendo uma gravidez tranqüila e saudável. Até que um dia acordei apavorada. Cismei que morreria no parto. Não sei por que,  mas tinha certeza. Deus, quem cuidaria dos meus pobres orfãozinhos, já que o pai não tinha o menor juízo? Passava horas pensando, se seria melhor deixá-los juntos em alguma instituição ou distribuí-los entre os parentes da minha confiança. Não conseguia achar uma solução satisfatória. Falei solenemente com minha irmã que acreditou piamente em minha premonição. Juntas, abraçadas choramos amargamente, lamentando minha morte prematura. Meu marido e meu médico se encarregaram de por fim a esse drama. “Pode morrer em paz” disse o primeiro. “Pare já com esses  chiliques, afinal você não é nenhuma criança e já pariu três!” finalizou o segundo. Fazer o que  diante de tamanha falta de sensibilidade.

 

E o nome do bebê? Se for menina, Ana Laura. Menino,  Lucas. Está decidido. Eu decidi, afinal eu  carrego esse bebê na barriga. Ele é meu! Pura  ilusão. O pai que nunca se entusiasmou com gravidez nenhuma, insensível aos mistérios da vida se desenvolvendo no ventre, indiferente às roupinhas, fraldas e tudo mais que envolve essa doce espera, resolveu botar as manguinhas de fora. “Se for menino eu escolho o nome e ninguém tasca! Meu filho não vai se chamar Lucas, nem Mateus, Samuel, Ezequiel, Daniel ou qualquer outro desses nomes de crente. Se deixar você coloca a cambada toda da Bíblia. Só estou indeciso entre Vitório, Aurélio (homenagem aos tios) ou  Lucindo (homenagem ao avô)”, ou Vitório Aurélio, quem sabe Lucindo Vitório”? A guerra acabava de ser declarada na família Mazini. E durou até a véspera do parto, quando eu, pés inchados,  barriga tão grande que mal podia andar, capitulei e propus um acordo: nem Lucas, nem Vitório, nem Aurélio ou Lucindo: vamos escolher após o nascimento. “Certo, quando nascer  EU escolho”. Ai, ai, ai, ai, depois que a gente comete uma loucura…

 

Chegou novembro. Novembro de 1989. Novembro da queda do muro de Berlim, Novembro das primeiras eleições diretas para Presidente. Novembro do meu bebê. Homem? Mulher? Com quem se pareceria? Estava  pesada, linda e tão sensível! Chorava por qualquer coisa. Ah, o meu bebê! “Nasce a qualquer hora após o dia 16”. Céus,  e se nascer antes e eu não puder votar? (A eleição era 15 de novembro).  “Promete que me leva de maca? Preciso participar desse momento histórico em que o Brasil vai mudar, tudo vai diferente, viva a democracia, etc. etc. etc.” Deus como eu era ingênua!   

 

Dia 21 de novembro. Tudo pronto para o grande momento. Agasalhamos as malas no velho fusca, o André com seu inseparável aparelho de inalação e num calor de quarenta graus partimos para Presidente Venceslau no estado de São Paulo onde no dia seguinte daria à luz meu quarto filho, menino ou menina? Os mais velhos ficaram em Bataguassu sob os cuidados da Ivone, secretária e do avô João. Todo mundo achava que eu torcia por uma menina, mas de verdade, do fundo do meu coração, isso não tinha a menor importância. Queria sim conhecer o objeto do meu amor incondicional, segurar nos braços, e falar para Deus: Como o Senhor é Generoso comigo!

 

Então, sob aquele sol inclemente, acredita que o pneu do fusca furou bem em cima da ponte sobre o Rio Paraná em Presidente Epitácio? Tudo bem, nada atrapalharia aquele momento único na minha vida. E  lá fomos eu e o André tomar sorvete no posto, enquanto o pneu era consertado.  Mais tarde, quando soube dessa história, João Vitor choramingou: “Eu também queria tomar sorvete”. Eu: “Você tomou, estava na barriga”. Ele: “Não queria sorvete mastigado”!

 

Dia 22 de novembro. Já não conseguia pensar em mais nada. Adeus eleições diretas, muro de Berlim, Paz Celestial Chinesa, comunismo em Cuba, Mandela na África, fome no Nordeste, moradores de rua em São Paulo,  os filhos que ficaram em Bataguassu, enfim, o mundo parou. Eu era o centro, o milagre da vida se repetia em mim. Todo o meu ser estava voltado para a tarefa divina de dar à luz! Parecia que na sala de operação todos se moviam em câmera lenta. Achei um desrespeito a equipe médica conversar normalmente sobre assuntos banais naquele sacro momento.  Grande paz me envolveu.  Me desliguei de tudo. Seria emoção ou  efeitos da anestesia?

 

Assim que colocou a cabeça pra fora chorou a plenos pulmões. Forte, saudável, perfeito, menino! Um lindo menino! Eu que adoro números anotei mentalmente as informações: 53 cm, 4,10 kg, nota 9 no teste de Apgar. “Por que não 10”? Não me lembro da resposta.  Sonolenta, dei as boas vindas ao meu filho. Não ao quarto filho. Ao único. Esperei por ele desde a eternidade. Deus sorria pra mim. Piscava os olhos em cumplicidade. Agarrada àquela trouxinha úmida e chorona ouvi a voz do meu Pai Celestial: “Viu como Sou Generoso com você”?  Não podia discordar.

 

O pai, mal conheceu o filho, saiu radiante para dar a notícia ao mundo. Nasceu. Menino. Enorme e vai se chamar… como vai se chamar mesmo? Consultar a mãe nem pensar. Não era hora de recomeçar o conflito armado. Como por encanto,  em sua fértil imaginação surgiram dois nomes: João Vitor e Carlos Eduardo. Porque, cargas d’água, ninguém sabe. No desespero da indecisão, consultou os parentes mais próximos ali da Santa Casa e ouviu a sugestão da tia Ivani: já tem muito Carlos na família, coloca João Vitor. E assim foi. Recebi a notícia ainda sob os efeitos da anestesia através de um telegrama fonado que minha cunhada de São Paulo enviou e que a enfermeira leu para mim: “Parabéns pela chegada do João Vitor”. Eu: “quem é João Vitor?” A enfermeira: “Deve ser seu filho, ora”! Eu: “ah! Bom”! Era meu filho. Muito prazer João Vitor.  Gostei do nome. E era  “nome de crente”. Bíblico. Meu evangelista preferido, João. Homenagem ao meu pai, João. O pai indignado: “pura coincidência”. Por que Vitor? De vitória,   deve ser. Saí ganhando nessa. Mais uma vez Alguém piscou pra mim em cumplicidade.

 

Cinco dias depois, voltamos para Mato Grosso do Sul. Eu, orgulhosa, feliz, não largava “meu troféu”, ansiosa para apresentá-lo aos irmãos, amigos, enfim. Algo interessante acontecia comigo nessa fase. Sobrecarga hormonal, não sei, me deixava “ligada” vinte quatro horas por dia. Não tirava os olhos do bebê, atenta a qualquer movimento. Instinto animal à flor da pele. À menor ameaça, saltava em defesa da cria. Assim, quase enlouqueci quando meus alunos vieram  me visitar, sala por sala, aquele exército de crianças, me abraçando, apertando as bochechas do meu bebê, falando sem parar, subindo na cama. Socorro!

 

Ah, os irmãos. André agora entendia direitinho que a ameaça à sua hegemonia era real. Aquele ser que invadiu seu mundo chorava e mamava o tempo todo, monopolizando a atenção de todos, principalmente da sua mãe. Isso não era nada bom. Israel se esforçava para colaborar, mas estranhamente começou a precisar de ajuda para fazer as tarefas da escola e por um tempo a rua perdeu a graça. Os amiguinhos Jeferson, Ricardo, Bil e Marcio podiam esperar, agora ele precisava estar junto da mamãe. Era muita concorrência!  Quanto ao irmão mais velho, não se pode dizer que sua rotina tenha mudado por causa do novo habitante. Continuava ocupadíssimo com suas conquistas amorosas, curtindo Raul Seixas, Legião Urbana, Paralamas e Michael Jackson. De vez em quanto se dava conta de um novo som na casa, mas era só um detalhe. Viva a adolescência!

 

Assim,  1989 chegou ao fim. Que ano!  Votei para presidente, vi cair o Muro de Berlin, chorei pelos chineses, e fui protagonista do feito mais importante:  parceria com Deus na realização de um projeto muito especial. Projeto antigo, sonhado, idealizado desde antes da fundação do mundo.  Gestei esse projeto. Pari, amamentei e aconcheguei nos braços. Participei da materialização do Amor Deus. Sempre com a Sua cumplicidade. Seu piscar de olhos. Hoje, vinte anos depois, olho para nosso projeto, meu e de Deus e fico muito orgulhosa. É minha vez de piscar em cumplicidade: fizemos um bom trabalho Senhor. Nosso projeto ficou lindo, perfeito, único!

 

 O  Senhor é realmente muito, muito Generoso comigo!     

 

                                                                                               Eva Mazini

A dona Eva e eu

A égua enfurecida

Essa história foi postada inicialmente em meu antigo blog há um ano atrás. Mas vale a pena relembrar

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Se você já me conhece há algum tempo, com certeza, já deve ter escutado a história que narrarei a seguir. Então agora contemple a versão escrita. Você que ainda não ouviu, saiba que este é um clássico da família Mazini.

Estamos em 1990. Eu completaria meu primeiro ano de vida em novembro. Meu irmão André, já possuía seus cinco anos de idade naquele começo de década. Era uma figura muito peculiar como pode ver na imagem abaixo. Era fim de tarde. Minha mãe se dirigia a cozinha para poder preparar o jantar da familia. Tarefa um tanto quanto difícil quando se tem dois bebês pedindo sua atenção.

FOTOGRAFIA7

Pequeno André

A solução encontrada por minha mãe foi simples. Obrigar meu pai, que assistia TV, muito entediado, a ir dar uma volta com as crianças enquanto ela cozinhava. Meu pai ficou muito feliz, alegre e entusiasmado com a tarefa (eu prefiro acreditar assim). Comigo em seu colo, e segurando o André pela mão, dirigiu-se ao portão de nossa casa. Nota: morávamos em Bataguassu. Cidade do interior do nosso estado. Na época contava com cerca de 15 mil habitantes.

Ao ganhar a rua meu pai avista do outro lado uma égua. A égua estava comendo seu capim tranquilamente. Exausta, depois de um dia inteiro de trabalho árduo em pleno sol de 40°. O faro paterno de nosso pai, viu na égua o que ele precisava para poder entreter-nos durante algum tempo. Pois bem, caminhamos em direção aquela doce eqüina que ruminava de maneira bucólica seu capim.

- Olha filho a éguinha, que bonitinha. Disse meu pai para o André, segurando sua mão. Nem o André, nem eu, muito menos a égua esboçamos alguma reação. Querendo que o animal fizesse algo interessante, meu pai, achou por bem soltar a mão do André (lembrando que eu estava no seu colo) e, dar um tapa no lombo da égua. E foi o que ele fez. Com um sorriso amarelo para o André, meu pai cheio de si e se achando o próprio Zorro no cuidado com cavalos, deu um tapa no lombo da coitada.

Se o que ele queria era uma reação da égua, ele conseguiu. Após levar o tapa, aquela trabalhadora exausta reagiu de uma maneira a altura do desaforo. Em uma movimentação muito rápida, digna dos filmes de 007, a égua empinou-se relinchando de ódio. Em seguida num sorrateiro golpe, MORDEU muito vingativa a barriga do meu pai. O termo exato seria grudar. Ela grudou na barriga dele. Neste momento, meu pai que estava comigo no colo ainda conseguiu me segurar. Ficando, eu, pendurado pelo braço. O André saiu rolando por debaixo da égua enfurecida, vomitando de nervoso. Até hoje o coitado tem trauma de cavalos. Verdade!

 Ao escutar os gritos da égua, os gritos do meu pai, os meus gritos, os ruídos do vômito do André, minha mãe correu para fora. Ao ver aquela cena da égua grudada na barriga do meu pai que, por sua vez, travara uma luta com o animal, além de me manter pendurado pelo braço, e o meu irmão rolando pelo chão. Minha mãe não reagiu a seus instintos maternos. Caiu no chão e teve uma crise de riso. Ela diz que foi de nervoso. Eu tenho minhas dúvidas.

Enfim, alguns pontos depois no corte que a égua fez na barriga do meu pai, ele estava pronto pra outra. Comigo e meu irmão não aconteceu nada, fora o trauma que ele carrega até hoje dos eqüinos.

Depoimento de mamãe sobre o episódio, na época da primeira publicação: “Bem, eu, testemunha ocular e auricular (???) dessa história que já é de domínio público, devo acrescentar alguns detalhes. A danada da égua estava decididamente no seu dia de fúria. Não satisfeita em morder a barriga do meu pobre marido, deu coice em suas canelas, pisoteou seus pés, fez xixi, comeu parte da fralda do João Vitor e ainda babou na cabeça do André. A lambança foi total. Diante dessa cena o mínimo que podia me acontecer era ter uma crise de riso, concordam?”

baby

Eu na época!

 

Preciso contar…

Querido leitor (a).

Por muito tempo eu guardei este segredo. Por medo. Medo de não ser compreendido, medo das reações das pessoas, medo do que iriam falar, medo do que iriam pensar, enfim, medo!

Não me julguem por isso. Qualquer um no meu lugar sentiria e agiria da mesma forma. Mas enfim, chegou a hora. Preciso revelar um segredo. Algo que muito tem me incomodado, mas que não posso mais segurar.

O que quero dizer é, leitor (a), EU SOU SEU PAI.

Sim, eu sei, é chocante impactante mas precisava ser dito.
As coisas aconteceram muito rápido. Tudo começou quando conheci sua mãe naquele verão em Harvard. Éramos dois jovens incosequentes. Tudo o que queríamos era viver a intensidade de nossas emoções. Foi assim que tudo aconteceu.

Quando soube que ela estava grávida, me acovardei. Tinha apenas 18 anos e todo um futuro pela frente, por isso fugi. Me arrependo amargamente. Por favor, não condene sua mãe. Se ela não te contou foi porque achou que isso era o certo a fazer.

Espero que compreenda meus motivos. Farei de tudio para reconquistar seu coraçãozinho. Quero ser seu amigo, e o pai que nunca fui. Eu preciso tentar.

Para provar, uma foto minha e de sua mãe na época

Para provar, uma foto minha e de sua mãe na época

Você cantava. Cantava sim que eu sei!

Elas surgem do nada. Em pouco tempo já se alastraram pelo país. Você é obrigado a conviver com as malfadadas durante algum tempo. Antes que você se irrite, a ponto de fundar um movimento politicamente organizado contra a indústria fonográfica, ela desaparece como em um passe de mágica. Você pode não gostar, ter a mais diversas reações, mas uma coisa eu garanto: você canta junto! Cantava sim que eu sei. Do que eu estou falando? Da música do momento, lógico!

Vamos relembrar alguns desses singles?

Em 1996 não teve pra ninguém. Com letras de profunda reflexão filosófica, o grupo Gera samba, empolgava nas curvas de Carla Perez e Débora Brasil. Mesmo sem saber ao certo o grau de periculosidade deste sujeito, não houve um brasileiro sequer que não segurasse, amarrasse e segurasse denovo esse tal de Tchan

http://www.youtube.com/watch?v=2VEn8jf3JW4

Ela foi a música mais tocada, na América Latina, no ano de 1999. Enquanto muitos se preocupavam com o bug do milênio, ou com as profecias de Nostradamus, Mauricio Maniere não dava uma trégua com seu rouco sucesso “Bem Querer”

http://www.youtube.com/watch?v=YHwFerhyEcU

Quem disse que nossa juventude é alienada? No ano 2000,o grupo baiano “As Meninas” conseguiram uma façanha genial! Com seu hit estourado nas paradas, as deliciosas engajadas moças faziam crítica social com a bunda. Fala sério, isso não te faz ter orgulho de ser brasileiro?

http://www.youtube.com/watch?v=6QKk5gU-CDI&feature=fvw

Já em 2001, Kelly Key sentia uma necessidade absurda de demonstrar para o Brasil todo o quanto ela tinha crescido. No auge de seus 18 anos, ao invés de procurar um psicólogo para entender o que tinha por trás daquela necessidade de afirmação, a moça resolveu mesmo gravar um cd.

http://www.youtube.com/watch?v=12UrHVxziWI

No ano seguinte, após participarem de um reality show no SBT, o grupo Rouge conseguiu um feito fantástico. Estouraram no Basil todo, sem uma única apariçãozinha na Rede Globo. Com um emaranhado de palavras sem sentido (há os que defendam que tenham sido ditadas diretamente da boca de satanás) e uma coreografia que fez até sua avó perder as estribeiras, as garotas emplacaram Ragatanga.

http://www.youtube.com/watch?v=fG-t-di3-Pc

Encerro essa empreitada, com um hit de 2003. Após resolver deixar de ser apenas um objeto engraçadinho, o grupo Kaleidoscópio lança Tem que valer. Afinal, o que tem mesmo é que viver, valer, viver, vale-er (mesmo que eu não saiba muito bem o que isso signifique).

http://www.youtube.com/watch?v=EWsF16w2J4E

Termino aqui. Qual hit você incluiria em minha seleção?

Linda morena

George é meu amigo de João Pessoa. Grande amigo. Após passar um mês no Canadá, voltou hoje para o Brasil. No caminho para casa uma conexão obrigatória, no meu já íntimo, Aeroporto de Guarulhos. Movido pela vontade de rever o meu caro, desloquei-me para lá. Ao total ficamos 40 minutos juntos. Excelente tempo.

Uma das partes mais interessantes do meu programa de índio desta manhã, se deu na espera do desembarque internacional. Em pé ao meu lado, um coroa com seus 50 anos, fazia de um rapaz que estava ao seu lado refém de sua incansável garganta. Num tom baixo, típico do velho tarado, não perdoava nenhum dos que desembarcavam de seus comentários. Me esforçava para entender aquele idioma paulitano da Mooca. De meu esforço consegui capturar algumas perólas:

1- Ao desembarcar uma Japonesa, daquelas do Japão, sabe? Nada a ver com nossas mestiças:
“Puta morena bonita, hein?” (Perseguindo a moça com os olhos lascivos)

2- Ao desembarcar um grupo de 4 aeremoroças japonesas, que traziam em seus cabelos uma espécie de hashi (parecido com aqueles acessórios de comer sushi) prendendo o coque:
“O bom é que essas aí, quando vai comer é só tira o pauzinho do cabelo. Depois volta com azeite e dá uma hidratada na juba”.

3- Para uma loira americana:
Gemidos nojentos.

4- Para uma moça que desceu com uma máscara hospitalar:
“Povo burro, pra que tudo isso? Aqui não pe o México não.”

5-`Até o passageiro por ele esperado não escapou da lingua venenosa:
“Que demora. Deve estar pagando propina pra alguém da Receita.”

George chegou!!!!!
- Joãoo…
- Georgee meu mano, que saudade
- Engordasse visse?
- É, engordei…

George, minha caneta canadense (viva o souvenir!) e Eu.

George, minha caneta canadense (viva o souvenir!) e Eu.

Ensaio

Professora mal humorada + ódio pelos alunos = trabalhos excêntricos.

O trabalho da vez? Fazer um ensaio. A idéia era fazer um ensaio sobre a corrupção, mas até agora estou tentando descobrir se o que fiz é deveras um ensaio. Aí vai:

 

Credibilidade para cobrar

 

Falar mal de políticos em rodas sociais já virou esporte, o problema está só neles?

 

“Nenhum presta”, “tudo corrupto”, “só servem para roubar”. Não faltam frases, títulos ou estereótipos para enquadrar nossos tão injustiçados governantes. Coitadinhos, o que fizeram para merecerem tamanho ódio? Jamais me comprometeria ao tentar responder tão incômoda questão. Ora vá, eles têm lá seus deslizes, mas como já diria o ditado cristão: atire a primeira pedra quem não os tiver. Intencionais ou casuais todos nós cometemos erros. Erros de todo tipo, de todas vertentes, de todas as gravidades, abrangências, enfim: erros. Todavia, mais uma vez apegado a ditados e clichês gostaria de complementar um muito famoso: se errar é humano, se corromper é brasileiro.

   Permita-me costurar as idéias acima expostas. Não perdemos a chance de nas mais inusitadas oportunidades criticar a corrupção existente em nossos governos. Esse assunto, aliás, de certa forma acaba unindo as pessoas. Sim! Você pode estar em uma fila de banco, totalmente cercado de desconhecidos, basta alguém começar a falar mal de um político para nos sentirmos totalmente à vontade e entrarmos na execração verbal com tudo, fazendo desta forma muitas amizades filas a fora. Não que as vítimas dos ataques não os mereçam, pelo contrário. Todavia, ao observar este fenômeno cheguei a uma conclusão: nossos políticos não passam de um retrato fiel da sociedade que “representam”.

Brasileiro tem a mania de achar que uma hora elegerá um salvador da pátria que nos livrará de todas as mazelas sociais existentes por aqui. E pelo visto, vai demorar a perceber que a mudança começa debaixo. Exemplificando: uma pessoa contratada para fazer os serviços gerais de uma grande empresa, ao entrar no depósito se depara com uma pilha gigantesca de papéis higiênicos. Ela então pensa, “no meio de tantos, ninguém sentiria falta de apenas um” e desta maneira, leva uma unidade para casa. É o mesmo que nossos políticos fazem, contudo o material de trabalho deles é o nosso dinheiro. Isto não justifica, de modo algum, as atitudes destes ou daqueles.

São muitos os exemplos que justificam nossa primeira premissa. No Brasil, se alguém descobre uma mala de dólares e os devolve, vira manchete de todos os jornais. Ora, não deveria isto ser algo corriqueiro? Somos corruptos quando não devolvemos o troco a mais, quando conseguimos umas “notinhas” para aliviar o imposto de renda, quando tentamos levar a melhor em cima de alguém que pagará por aquilo e principalmente quando nos omitimos diante de tais coisas.

Fica ainda mais difícil lutar, de alguma forma, contra isso quando vivemos em uma sociedade que valoriza, acha bonito e eleva a status cultural a malandragem, que por nós é chamada de “jeitinho brasileiro”. Jeitinho este que nada mais é do que a institucionalização da corrupção por aqui. Você pode até se apoiar no confortável argumento de que este problema não é exclusividade dos brasileiros, mas nos atenhamos a nossa realidade, pelo menos por enquanto.

A corrupção no Brasil deve ser combatida tanto quanto a fome, a desigualdade social, a falta de educação, entre muitos outros problemas. Se quisermos seriedade, temos que ser sérios. Lutar por valores. Não falo de moralismo barato, e sim de premissas que devem permear o caráter de todos independente de cor, raça, sexo, sexualidade, cultura, etc.

Façamos nossa parte, para que desta forma tenhamos credibilidade e legitimidade para poder cobrar. Cobrar forte, cobrar pesado, cobrar pra valer.

Não atrapalhe a vida dos outros

No metrô, sempre é possível escutar avisos para tornar o uso do mesmo mais funcional e civilizado. Um deles em especial sempre me chamou atenção: “Nas escadas rolantes mantenha-se à direita. NÃO ATRAPALHE A VIDA  DOS OUTROS”.

A última frase  é deveras impactante impactante para mim, e todos os dias me leva à uma reflexão profunda em meu ser.
Desta forma, fiquei imaginando como seria a voz do metrô em outras situações da vida, nos orientando como não atrapalharmos a vida dos outros. Vão aí algumas delas.

1- “Evite comer batata doce, repolho ou ovo em suas refeições. Não atrapalhe a vida dos outros”

2- “Se participar de um reallity show, tome banho! Não atrapalhe a vida dos outros”

3- “Não se apaixone. Não atrapalhe a vida dos outros”

4- “Ao escolher um curso na faculdade, não faça jornalismo. Não atrapalhe a vida dos outros”

5- “Quando assitir um filme não teça cometários em voz alta. Não atrapalhe a vida dos outros”

6- “Se você é feio em excesso, não saia de casa. Não atrapalhe a vida dos outros”

7- “Se for comunista, não conte a ninguém. Não atrapalhe a vida dos outros”

8- “Evite verdade incômodas a todo custo. Não atrapalhe a vida dos outros”

9- “Se beber, não cante o Hino do Brasil em câmaras estaduais alheias. Não atrapalhe a vida dos outros”

10- “Se for o Lula, não seja presidente. Não atrapalhe a vida dos outros”

Metrô, sempre um lugar de paz e reflexão

Metrô, sempre um lugar de paz e reflexão

Enquanto isso em uma república qualquer

João Vitor – Matheus me dá a idéia para um post no blog

Matheus – Fala sobre (conteúdo censurado)

João Vitor – Não posso falar sobre isso, é segredo

Matheus – Então fala que o Copola encontrou a Ivone na novela

João Vitor – Não seria o Gopal?

Matheus – Ah é.

Gordinho Tenso

Sete horas da noite, Evandro e Matheus (os insanos mentecaptos que moram comigo), vestem seus respectivos tênis, seus shorts de malhar, e com uma empolgação irritante e olhos de compaixão me falam: vamos malhar? Que raiva. Precisa me lembrar que a ACADEMIA existe? Que eu tô gordo e preciso me exercitar? Que são superiores a mim?

Mas eu não me rendo. Permaneço firme em meu tão cristalizado ócio.
Para me consolar me apego a discursos políticos-sociais-religiosos. Afinal aquele lugar é um santuário do culto ao corpo, em detrimento da intelectualidade e da espiritualidade. Não vou me render aos porcos capitalistas que me querem escravo da moda,  de desejos e ambições fúteis que apenas o dinheiro pode comprar. Eles me querem suado e ofegante, prostrado ao sitema. Isso jamais! Me diga qual academia frequentou Martin Luter King, Shakespeare ou Joana D’Arc. Mostre-me onde está a barriga de tanquinho que fizeram de Churchill ou Napoleão líderes vencedores. Precisamos nos despir destes valores que nos levarão a uma fugaz vida saudável. Viva o sedentarismo.

Droga, o remorso não passou.
Tá bom, tá bom… Amanhã eu vou malhar. Saco!

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