Hoje é o meu aniversário!
Divido com vocês uma crônica que mamãe fez pra mim.
O meu melhor presente, sem dúvidas.
PARA FICAR NA HISTÓRIA
Eu sabia que 1989 seria um ano inesquecível. Esperei por ele com ansiedade. Após os anos de ditadura, a frustração com a campanha das “Diretas Já” em 1985, votaria pela primeira vez para presidente do meu país. Havia no ar um clima de esperança, de patriotismo, e liberdade. Entre as aulas que ministrava e os cuidados que meus três filhos exigiam, lia tudo que me vinha às mãos, prestava atenção nos noticiários, assistia as entrevistas no Jô Soares e na Marília Gabriela e sentia o coração arder de entusiasmo. Tudo mudaria para melhor. As reformas necessárias seriam feitas. Haveria justiça social e distribuição de renda. O país voltaria a crescer. A economia se estabilizaria, acabando de vez com a maldita inflação de 50% ao mês que me deixava cada dia mais pobre, não obstante meu tão minguado salário. Deus, como eu era ingênua!
No primeiro turno votei no Brizola, apaixonada pelo seu discurso nacionalista. No segundo, no Lula, não porque acreditasse nele, mas porque tinha medo do Collor, com aquele ar raivoso, ensandecido. Mesmo assim, gostei de ver aquele jovem (ainda que raivoso e ensandecido) ao lado da sua linda e loura esposa acenando para a multidão. Hummm, será? Deus como eu era ingênua!
Mais surpresas me esperavam em 1989. Quando vi as imagens da queda do Muro de Berlim em 09 de novembro tive a nítida certeza de que a História estava sendo escrita sob meus olhos. Eu que no mesmo ano, em junho, chorei pelo massacre da Praça da Paz Celestial em Pequim, pasma com aquela imagem do estudante chinês desafiando os tanques de guerra do Governo Comunista.
Minha história pessoal também ganhou um capítulo novo em 1989. Em abril, mesmo usando anticoncepcional, descobri que estava grávida, de dois meses. Em novembro nasceria meu quarto filho. Confesso, fiquei em choque. Como dar conta de “mais um”? Primeiro passo, contar a novidade para a família. Foi mais ou menos assim: “Então, que maravilha, nossa família vai aumentar! Vamos ganhar um bebezinho, mamãe está grávida”! André (03 anos): silêncio. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas sabia que algo mudaria seu reinado de caçula. Isso não parecia muito bom. Israel (10 anos): que bom! Oba! Alexandre (14 anos): Meu Deus do Céu, mais uma criança nessa casa, quem vai agüentar! Abílio o pai (32 anos): fodeu! (desculpe o palavrão).
Meus alunos faziam a festa e nunca antes, na história deste país, uma barriga foi tão acariciada, apalpada, acarinhada como a minha. E assim cresceu a mais não poder. Para desespero geral de todos, decidi não saber o sexo antes da hora. Capaz que eu dividiria isso com alguém! A primeira a saber seria eu e ponto final.
E assim, entre uma aula e outra, os cuidados com a casa e a filharada, os debates com os candidatos na televisão, a esperança de um país melhor, com um presidente eleito democraticamente, de preferência o Brizola (Deus como eu era ingênua!) fui vivendo minha gestação. Passados o susto e a surpresa, estava feliz da vida, empolgada, vivendo uma gravidez tranqüila e saudável. Até que um dia acordei apavorada. Cismei que morreria no parto. Não sei por que, mas tinha certeza. Deus, quem cuidaria dos meus pobres orfãozinhos, já que o pai não tinha o menor juízo? Passava horas pensando, se seria melhor deixá-los juntos em alguma instituição ou distribuí-los entre os parentes da minha confiança. Não conseguia achar uma solução satisfatória. Falei solenemente com minha irmã que acreditou piamente em minha premonição. Juntas, abraçadas choramos amargamente, lamentando minha morte prematura. Meu marido e meu médico se encarregaram de por fim a esse drama. “Pode morrer em paz” disse o primeiro. “Pare já com esses chiliques, afinal você não é nenhuma criança e já pariu três!” finalizou o segundo. Fazer o que diante de tamanha falta de sensibilidade.
E o nome do bebê? Se for menina, Ana Laura. Menino, Lucas. Está decidido. Eu decidi, afinal eu carrego esse bebê na barriga. Ele é meu! Pura ilusão. O pai que nunca se entusiasmou com gravidez nenhuma, insensível aos mistérios da vida se desenvolvendo no ventre, indiferente às roupinhas, fraldas e tudo mais que envolve essa doce espera, resolveu botar as manguinhas de fora. “Se for menino eu escolho o nome e ninguém tasca! Meu filho não vai se chamar Lucas, nem Mateus, Samuel, Ezequiel, Daniel ou qualquer outro desses nomes de crente. Se deixar você coloca a cambada toda da Bíblia. Só estou indeciso entre Vitório, Aurélio (homenagem aos tios) ou Lucindo (homenagem ao avô)”, ou Vitório Aurélio, quem sabe Lucindo Vitório”? A guerra acabava de ser declarada na família Mazini. E durou até a véspera do parto, quando eu, pés inchados, barriga tão grande que mal podia andar, capitulei e propus um acordo: nem Lucas, nem Vitório, nem Aurélio ou Lucindo: vamos escolher após o nascimento. “Certo, quando nascer EU escolho”. Ai, ai, ai, ai, depois que a gente comete uma loucura…
Chegou novembro. Novembro de 1989. Novembro da queda do muro de Berlim, Novembro das primeiras eleições diretas para Presidente. Novembro do meu bebê. Homem? Mulher? Com quem se pareceria? Estava pesada, linda e tão sensível! Chorava por qualquer coisa. Ah, o meu bebê! “Nasce a qualquer hora após o dia 16”. Céus, e se nascer antes e eu não puder votar? (A eleição era 15 de novembro). “Promete que me leva de maca? Preciso participar desse momento histórico em que o Brasil vai mudar, tudo vai diferente, viva a democracia, etc. etc. etc.” Deus como eu era ingênua!
Dia 21 de novembro. Tudo pronto para o grande momento. Agasalhamos as malas no velho fusca, o André com seu inseparável aparelho de inalação e num calor de quarenta graus partimos para Presidente Venceslau no estado de São Paulo onde no dia seguinte daria à luz meu quarto filho, menino ou menina? Os mais velhos ficaram em Bataguassu sob os cuidados da Ivone, secretária e do avô João. Todo mundo achava que eu torcia por uma menina, mas de verdade, do fundo do meu coração, isso não tinha a menor importância. Queria sim conhecer o objeto do meu amor incondicional, segurar nos braços, e falar para Deus: Como o Senhor é Generoso comigo!
Então, sob aquele sol inclemente, acredita que o pneu do fusca furou bem em cima da ponte sobre o Rio Paraná em Presidente Epitácio? Tudo bem, nada atrapalharia aquele momento único na minha vida. E lá fomos eu e o André tomar sorvete no posto, enquanto o pneu era consertado. Mais tarde, quando soube dessa história, João Vitor choramingou: “Eu também queria tomar sorvete”. Eu: “Você tomou, estava na barriga”. Ele: “Não queria sorvete mastigado”!
Dia 22 de novembro. Já não conseguia pensar em mais nada. Adeus eleições diretas, muro de Berlim, Paz Celestial Chinesa, comunismo em Cuba, Mandela na África, fome no Nordeste, moradores de rua em São Paulo, os filhos que ficaram em Bataguassu, enfim, o mundo parou. Eu era o centro, o milagre da vida se repetia em mim. Todo o meu ser estava voltado para a tarefa divina de dar à luz! Parecia que na sala de operação todos se moviam em câmera lenta. Achei um desrespeito a equipe médica conversar normalmente sobre assuntos banais naquele sacro momento. Grande paz me envolveu. Me desliguei de tudo. Seria emoção ou efeitos da anestesia?
Assim que colocou a cabeça pra fora chorou a plenos pulmões. Forte, saudável, perfeito, menino! Um lindo menino! Eu que adoro números anotei mentalmente as informações: 53 cm, 4,10 kg, nota 9 no teste de Apgar. “Por que não 10”? Não me lembro da resposta. Sonolenta, dei as boas vindas ao meu filho. Não ao quarto filho. Ao único. Esperei por ele desde a eternidade. Deus sorria pra mim. Piscava os olhos em cumplicidade. Agarrada àquela trouxinha úmida e chorona ouvi a voz do meu Pai Celestial: “Viu como Sou Generoso com você”? Não podia discordar.
O pai, mal conheceu o filho, saiu radiante para dar a notícia ao mundo. Nasceu. Menino. Enorme e vai se chamar… como vai se chamar mesmo? Consultar a mãe nem pensar. Não era hora de recomeçar o conflito armado. Como por encanto, em sua fértil imaginação surgiram dois nomes: João Vitor e Carlos Eduardo. Porque, cargas d’água, ninguém sabe. No desespero da indecisão, consultou os parentes mais próximos ali da Santa Casa e ouviu a sugestão da tia Ivani: já tem muito Carlos na família, coloca João Vitor. E assim foi. Recebi a notícia ainda sob os efeitos da anestesia através de um telegrama fonado que minha cunhada de São Paulo enviou e que a enfermeira leu para mim: “Parabéns pela chegada do João Vitor”. Eu: “quem é João Vitor?” A enfermeira: “Deve ser seu filho, ora”! Eu: “ah! Bom”! Era meu filho. Muito prazer João Vitor. Gostei do nome. E era “nome de crente”. Bíblico. Meu evangelista preferido, João. Homenagem ao meu pai, João. O pai indignado: “pura coincidência”. Por que Vitor? De vitória, deve ser. Saí ganhando nessa. Mais uma vez Alguém piscou pra mim em cumplicidade.
Cinco dias depois, voltamos para Mato Grosso do Sul. Eu, orgulhosa, feliz, não largava “meu troféu”, ansiosa para apresentá-lo aos irmãos, amigos, enfim. Algo interessante acontecia comigo nessa fase. Sobrecarga hormonal, não sei, me deixava “ligada” vinte quatro horas por dia. Não tirava os olhos do bebê, atenta a qualquer movimento. Instinto animal à flor da pele. À menor ameaça, saltava em defesa da cria. Assim, quase enlouqueci quando meus alunos vieram me visitar, sala por sala, aquele exército de crianças, me abraçando, apertando as bochechas do meu bebê, falando sem parar, subindo na cama. Socorro!
Ah, os irmãos. André agora entendia direitinho que a ameaça à sua hegemonia era real. Aquele ser que invadiu seu mundo chorava e mamava o tempo todo, monopolizando a atenção de todos, principalmente da sua mãe. Isso não era nada bom. Israel se esforçava para colaborar, mas estranhamente começou a precisar de ajuda para fazer as tarefas da escola e por um tempo a rua perdeu a graça. Os amiguinhos Jeferson, Ricardo, Bil e Marcio podiam esperar, agora ele precisava estar junto da mamãe. Era muita concorrência! Quanto ao irmão mais velho, não se pode dizer que sua rotina tenha mudado por causa do novo habitante. Continuava ocupadíssimo com suas conquistas amorosas, curtindo Raul Seixas, Legião Urbana, Paralamas e Michael Jackson. De vez em quanto se dava conta de um novo som na casa, mas era só um detalhe. Viva a adolescência!
Assim, 1989 chegou ao fim. Que ano! Votei para presidente, vi cair o Muro de Berlin, chorei pelos chineses, e fui protagonista do feito mais importante: parceria com Deus na realização de um projeto muito especial. Projeto antigo, sonhado, idealizado desde antes da fundação do mundo. Gestei esse projeto. Pari, amamentei e aconcheguei nos braços. Participei da materialização do Amor Deus. Sempre com a Sua cumplicidade. Seu piscar de olhos. Hoje, vinte anos depois, olho para nosso projeto, meu e de Deus e fico muito orgulhosa. É minha vez de piscar em cumplicidade: fizemos um bom trabalho Senhor. Nosso projeto ficou lindo, perfeito, único!
O Senhor é realmente muito, muito Generoso comigo!
Eva Mazini

A dona Eva e eu